Machado de Assis : epilepsia, espiritismo e muito mais
Por Alice Marc, quinta-feira 30 de abril 2009 à(s) 21:51 :: Brasil :: #32 :: rss
Machado de Assis é, indiscutivelmente, um grande escritor, cuja importância é reconhecida em nosso país, felizmente.
Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.
Ao apreciar a riqueza dos livros de Machado de Assis, surge logo o interesse em saber mais sobre a sua personalidade para buscar estabelecer algum tipo de relação entre a sua pessoa e os seus personagens.
Percebe-se muitas vezes, aliás, a menção das palavras cérebro e espírito pelo autor, além da descrição detalhada de sensações de confusão ou devaneio, com aspecto agradável ou não.
Quando observamos o uso freqüente de palavras como espírito, espiritualidade, alma, entre outras, podemos associar este tema de interesse de Machado de Assis com o crescimento do espiritismo no Brasil, especialmente com a fundação da Federação Espírita Brasileira, FEB, em 2 de janeiro de 1884, no Rio de Janeiro, justamente na cidade do autor.
Com toda a inteligência, curiosidade intelectual e a vivacidade de Machado de Assis, imagina-se perfeitamente seu interesse pelas obras de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), cujo pseudônimo é Allan Kardec, espelhando, inclusive, uma tendência então crescente no Brasil, que levou o nosso país a contar, atualmente, com o maior número de espíritas em todo o mundo.
Quanto à relação de Machado de Assis com o espiritismo, são citadas algumas referências do célebre autor em algumas de suas crônicas :
3 de julho de 1892 – Expõe sobre a reencarnação, fazendo a distinção entre esta de acordo com o Espiritismo e a metempsicose dos brâmanes. Interessante notar que ele reproduz praticamente na íntegra a inscrição encontrada no túmulo de Allan Kardec: “A lei é esta: nascer, morrer, tornar a nascer e renascer ainda, progredir sempre.” (Assis, 1997: 12).
23 de setembro de 1894 – Mais considerações a respeito da reencarnação e de como ela poderia explicar um caso de acusação de bigamia.
27 de outubro de 1895 – Entre outras considerações gerais surge o questionamento da divergência entre o artigo 157 do Código Penal de 1890, que declara crime “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios”, e a Constituição Republicana, chamada de “mãe do Código”, que acabava com a religião do Estado.
Já com relação ao uso freqüente de palavras como cérebro, devaneio ou convulso, por Machado de Assis, percebe-se a sua preocupação com a condição mental:
A preocupação com a loucura esteve presente em vários de seus caracteres, especialmente no "O alienista" e descreveu uma crise de "automatismo ambulatório" em Rubião, de "Quincas Borba", que apresentava paralisia geral progressiva: "Deu por si na Praça da Constituição. Viera andando à toa" e em Brás Cubas, nas Memórias Póstumas :
"Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas que a fizeram".
Machado de Assis tinha epilepsia e, ao que parece, procurava evitar o assunto, tendo até mesmo, escondido a disfunção neurológica da sua esposa Carolina, que só veio a saber da epilepsia do marido na circunstância de uma crise:
(...) O próprio Machado tinha pudor de sua enfermidade e não aludia a ela senão muito raramente e nunca lhe escrevia o nome, ocultando a doença até dos amigos mais íntimos, como em sua correspondência com o amigo Mário de Alencar: "O muito trabalhar destes últimos dias tem-me trazido alguns fenômenos nervosos...". Esta fobia pela palavra "epilepsia" era tão grande que a excluiu das edições ulteriores de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", e que deixara escapar na primeira ao descrever o padecimento de Virgília diante da morte do amante: "Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica...", substituída por: "Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...". Quando alguém lhe notou certa vez a dificuldade com que ele falava por causa das mordeduras da língua, justificava-a como "Estas aftas Estas aftas ". Ocultou-a inclusive da amada e dedicada esposa, Carolina, a quem devotava imensa ternura, não revelando seu problema antes do casamento. Provavelmente, a epilepsia de Machado de Assis teve início na infância, fato declarado pelo próprio Machado, ao tempo do primeiro ataque depois do casamento (uma crise generalizada tônico-clônica) de que sentira, em criança, "umas coisas esquisitas", que não se haviam mais repetido até aquela data. É possível, talvez, que Machado não tivesse tido até então uma crise típica (Pelegrino Jr., 1976). Esta crise denunciou, na idade adulta, a maior tortura da vida de Machado - a epilepsia.
Pode-se, no entanto, compreender a atitude de Machado de Assis. Com efeito, há preconceito com relação à epilepsia, mesmo nos dias de hoje, em que se acredita viver em uma sociedade mais evoluída e aberta. Um distúrbio neurológico é muitas vezes, infelizmente, confundido com uma limitação da inteligência ou da capacidade do epiléptico.
Segundo consta, Machado de Assis sofreu em virtude da epilepsia. Resta a dúvida se o maior sofrimento por ele sentido tenha sido em função das conseqüências orgânicas dos distúrbios – mal-estar antes das crises epilépticas, durante o estado de aura, ferimentos decorrentes das quedas e provável estranheza posterior às crises, na fase de reanimação, ou tenha sido maior o desconforto causado pelo esforço no sentido de não se expor à pressão social que delimita, nos costumes e na mentalidade do povo, as tênues fronteiras da “normalidade”.
Apesar de todas as dificuldades que Machado de Assis certamente viveu, e, mesmo havendo a expressão de sentimentos negativos em seus livros, principalmente no final de sua vida, pode-se certamente considerar sua atitude como positiva, de um modo geral. Com efeito, o autor manteve sempre uma conduta ativa, vencendo obstáculos com a força da genialidade das suas obras e sabendo partilhar a sua presença e os seus pensamentos através do seu trabalho.
Machado de Assis representa, certamente, muitas outras coisas mais, em adição à epilepsia ou ao espiritismo. Tais elementos são eixos importantes em sua obra, que revelam seus focos de interesse e até mesmo de preocupação em compreender e analisar a vida e as pessoas. Machado de Assis, na verdade, retrata a complexidade do ser humano e das relações interpessoais de um modo tão abrangente que nunca perde a atualidade, levando-nos, inevitavelmente, à reflexão.
Comentários
1. Em sábado 19 de setembro 2009 à 20:58, por José Antonio Martino
2. Em quinta-feira 29 de outubro 2009 à 12:38, por kimberly kethullin
3. Em segunda-feira 16 de novembro 2009 à 03:24, por carlyle
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