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Particularidades Cognitivas da Orientação Acadêmica em EAD

A experiência em EAD permite que os alunos sejam eficientes naquilo que é essencial aos seus desejos.

Diferentes pesquisas comprovaram que há diferenças entre estudantes que se inscrevem em cursos à distância e estudantes que se inscrevem em cursos presenciais tradicionais com relação a certas características individuais como gênero, idade, situação social, lugar onde mora, os motivos que levam o aluno a optar por uma modalidade ou outra de ensino, a experiência em educação à distância. Além disso, as particularidades cognitivas dos alunos desempenham também um papel fundamental, como o estilo de aprendizagem, o estilo cognitivo, a motivação, o lugar de controle, a interação e a autonomia.

A Orientação acadêmica é considerada como uma atividade de enquadramento pedagógico em EAD. O enquadramento pedagógico define-se como uma série de recursos colocados à disposição do estudante para facilitar a sua aprendizagem. Esse enquadramento pode ser garantido pelo professor no caso da orientação acadêmica ou pelas funcionalidades integradas no sistema informático (awareness) ou, ainda, pelos próprios estudantes através de grupos de apoio estudantil.

Para a utilização da atividade de enquadramento – orientação acadêmica – verifica-se, inicialmente, a experiência que o estudante tem em formação à distância e a sua atitude frente à formação à distância. Uma constatação geral é que os estudantes, experientes ou não, dão mais importância às atividades que serão avaliadas com atribuição de notas e conceitos. As atividades de enquadramento percebidas como não controladas pela instituição ou que não lhes permite avaliar ele próprio a sua performance são geralmente ignoradas. As atitudes dos estudantes com relação à educação à distância são indicadores tão importantes quanto o seu desempenho para a identificação da eficácia dos cursos realizados na modalidade à distância.

Mas é fundamental o conhecimento por parte do orientador das características cognitivas que vão determinar o sucesso do estudante no curso à distância. O orientador que conhece o estilo de aprendizagem dos seus alunos – a predisposição ou forma que o sujeito adota na abordagem de tarefas de aprendizagem - tem condições de adotar estratégias de trabalho diferenciadas e mais individualizadas, dando à sua prática educativa mais significado e também destacando elementos motivadores para os alunos. É importante também conhecer os estilos cognitivos (embora eles façam parte do estilo de aprendizagem, eles podem ser estudados de maneira mais focada). Os estilos cognitivos – formas de estratégias cognitivas utilizadas pelos indivíduos na codificação da informação - afetam o desempenho dos alunos em diferentes meios computacionais e a sua análise ajuda o orientador a direcionar as suas interações com os alunos.

Destacamos o aspecto de autonomia do aluno na EAD. A autonomia é sempre relativa e diferente de indivíduo para indivíduo, variando também de um curso para outro. Segundo Moore (Moore, 1993), a importância da distância transacional em um curso depende de três conjuntos de variáveis: o diálogo, a estrutura e a autonomia do estudante. Assim, podemos conceber as relações entre essas três variáveis através de diferentes composições entre elas: mais a estrutura é importante, fechada, sem imprevistos, permitindo uma aprendizagem segura e consistente (embora unidirecional) mais o diálogo é fraco e mais o estudante poderá exercer sua autonomia dentro do ambiente virtual de aprendizagem. Por outro lado, a ênfase na aprendizagem dialógica proporciona o encontro do Orientador com o estudante, favorece o crescimento cognitivo de ambos e o exercício da reflexão propicia a tomada de decisão consciente, favorecendo a autonomia social do indivíduo. O diálogo na educação à distância desenvolve uma forma autônoma de ensino e aprendizagem.

A interação é uma dimensão importante no processo de conhecimento da elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), da monografia, da dissertação de mestrado e da tese de doutorado. A utilização dos recursos tecnológicos como o correio eletrônico na orientação, apesar de facilitar as relações entre o estudante e o orientador que o enquadra não soluciona problemas comunicacionais que merecem nossa atenção, tais como problemas de linguagem, de lógica, de civilidade e de esquemas comunicativos.

Outro aspecto cognitivo importante é o lugar de controle que define-se como uma construção que se refere à crença que o indivíduo tem de controlar ou não a sua vida e é composto por duas orientações: o controle interno e o controle externo. (Rotter, 1966). Há controle externo quando um reforço consecutivo a uma ação é percebido como sendo o resultado do acaso, da sorte, do destino ou do poder que certas pessoas exercem sobre nós. Há controle interno quando, ao contrário, uma pessoa percebe um acontecimento como imputável a seu comportamento e a suas características pessoais. A operacionalização desse conceito acontece também em escala de três dimensões IPC (interna, pessoal e chance) a partir de Levenson (Levenson, 1972), desenvolvida a partir da escala em duas dimensões idealizada por Rotter.

Finalmente, a motivação, fundamental para o êxito dos cursos à distância, é uma característica afetivo-cognitiva que tem sua origem nas percepções que o indivíduo tem de si mesmo e de seu ambiente. Tem a função de incitar o sujeito a se engajar em uma ação e a persistir nessa ação até a sua conclusão a fim de atingir um objetivo. Os indivíduos adquirem, através das suas experiências de vida, necessidades específicas (meios para atingir satisfação) como a realização, a afiliação ou o poder. A motivação das pessoas, em determinadas situações, pode ser influenciada por essas três necessidades. (McClelland, 1987). Na motivação realização encontramos pessoas que gostam de projetos desafiadores com objetivos elevados. Trabalham sozinhos e tomam suas próprias decisões. Não trabalham bem sob supervisão cerrada. Precisam de feedback constante. Competem como forma de auto-avaliação. Na motivação afiliação os indivíduos demonstra m sua melhor performance em ambientes colaborativos e cooperativos. Eles têm avidez por interação, precisam ser amados e desfrutar da companhia dos outros, relacionar-se cordial e afetuosamente com os outros. Precisam falar da família, dos amigos e têm muitos outros interesses sociais. Na motivação poder os estudantes desenvolvem melhor seu potencial tendo a oportunidade de gerenciar/controlar outras pessoas. Tendem a ser firmes, diretos e competitivos, também persuasivos, se necessário. Gostam de dar conselhos e exibir objetos que revelem status. Precisam exercer influência em outras pessoas.

A Orientação acadêmica à distância está baseada no diálogo e deve levar em conta uma complexidade de fatores como perfil do aluno, estilo de aprendizagem, estilo cognitivo, atitude do aluno com relação à EAD, autonomia, lugar de controle, interação e motivação. Considerando também a intenção das instituições e as percepções dos estudantes, parece-me então ser necessário o oferecimento de ferramentas para atingir as metas e objetivos propostos, buscando sempre mecanismos que permitam uma discussão orientada, ajustada o perfil dos estudantes. Esse diálogo deve incitar os estudantes a implicarem-se ativamente no trabalho proposto, fornecendo ao final, como resultado, aquilo que cada um considera importante.

Referências Bibliográficas

Levenson, H. (1972). Distinction within the concept of internal-external control: Development of a new scale. Proceedings of the 80th Annual Convention of the American Psychological Association, 261–262.

McClelland, David (1987). Human Motivation, Cambridge University Press.

Moore, M.G. (1993). Theory of transactional distance.D. Keegan ed.

Rotter, J. (1954). Social learning and clinical psychology. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice- Hall.

Rotter, J. B. (1966). Generalized expectancies for internal versus external control of reinforcement. Psychological Monographs, 80, 1–28.

“Harmonia Pura e Perfeita” do quadro de Rafael "A Transfiguração"

A estrutura do quadro A Transfiguração (1520) de Rafael (Raffaello Santi ou Sanzio) nos seduz através de uma combinação elementar de repetição e variedade que nos oferece um efeito de sentido de simetria. Este é o último quadro pintado por Rafael e encontra-se na Pinacoteca do Vaticano.

A expressão “harmonia pura e perfeita” foi empregada inicialmente pelos gregos com relação ao escultor Fídias e, mais tarde, por vários críticos de arte para designar a obra de Rafael. Na verdade, temos nesta obra uma simetria perfeita entre, de um lado, a transfiguração de Cristo, rodeado pelos profetas Moisés e Elias e, de outro, o grupo formado pelos apóstolos, pelos pais do menino epiléptico e pelo próprio menino no momento de uma crise de epilepsia.

Para Nietzsche, A Transfiguração de Rafael ilustra a noção de “aparência da aparência” em que a primeira aparência é um espetáculo de dor que une este mundo triste a um novo mundo de aparências. No entanto, os atores da cena da primeira aparência são cegos porque prisioneiros dessa primeira aparência. Um mundo está condicionado ao outro que é uma resposta de esperança ao primeiro mundo de aparências. Rafael obteve a harmonia pura e perfeita nesta obra magistral que nos faz refletir até hoje.

Machado de Assis : epilepsia, espiritismo e muito mais

Machado de Assis, Copyright ABL – Machado de AssisMachado de Assis é, indiscutivelmente, um grande escritor, cuja importância é reconhecida em nosso país, felizmente.

Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

ABL – Machado de Assis

Ao apreciar a riqueza dos livros de Machado de Assis, surge logo o interesse em saber mais sobre a sua personalidade para buscar estabelecer algum tipo de relação entre a sua pessoa e os seus personagens.

Percebe-se muitas vezes, aliás, a menção das palavras cérebro e espírito pelo autor, além da descrição detalhada de sensações de confusão ou devaneio, com aspecto agradável ou não.

Quando observamos o uso freqüente de palavras como espírito, espiritualidade, alma, entre outras, podemos associar este tema de interesse de Machado de Assis com o crescimento do espiritismo no Brasil, especialmente com a fundação da Federação Espírita Brasileira, FEB, em 2 de janeiro de 1884, no Rio de Janeiro, justamente na cidade do autor.

Allan Kardec, Copyright Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec Com toda a inteligência, curiosidade intelectual e a vivacidade de Machado de Assis, imagina-se perfeitamente seu interesse pelas obras de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), cujo pseudônimo é Allan Kardec, espelhando, inclusive, uma tendência então crescente no Brasil, que levou o nosso país a contar, atualmente, com o maior número de espíritas em todo o mundo.

Quanto à relação de Machado de Assis com o espiritismo, são citadas algumas referências do célebre autor em algumas de suas crônicas :

3 de julho de 1892 – Expõe sobre a reencarnação, fazendo a distinção entre esta de acordo com o Espiritismo e a metempsicose dos brâmanes. Interessante notar que ele reproduz praticamente na íntegra a inscrição encontrada no túmulo de Allan Kardec: “A lei é esta: nascer, morrer, tornar a nascer e renascer ainda, progredir sempre.” (Assis, 1997: 12).

23 de setembro de 1894 – Mais considerações a respeito da reencarnação e de como ela poderia explicar um caso de acusação de bigamia.

27 de outubro de 1895 – Entre outras considerações gerais surge o questionamento da divergência entre o artigo 157 do Código Penal de 1890, que declara crime “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios”, e a Constituição Republicana, chamada de “mãe do Código”, que acabava com a religião do Estado.

Glaucio Cardoso, Recanto das Letras

Já com relação ao uso freqüente de palavras como cérebro, devaneio ou convulso, por Machado de Assis, percebe-se a sua preocupação com a condição mental:

A preocupação com a loucura esteve presente em vários de seus caracteres, especialmente no "O alienista" e descreveu uma crise de "automatismo ambulatório" em Rubião, de "Quincas Borba", que apresentava paralisia geral progressiva: "Deu por si na Praça da Constituição. Viera andando à toa" e em Brás Cubas, nas Memórias Póstumas :

"Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas que a fizeram".

Associação Brasileira de Epilepsia, ABE

Carolina de Assis, Copyright ABL – Machado de Assis Machado de Assis tinha epilepsia e, ao que parece, procurava evitar o assunto, tendo até mesmo, escondido a disfunção neurológica da sua esposa Carolina, que só veio a saber da epilepsia do marido na circunstância de uma crise:

(...) O próprio Machado tinha pudor de sua enfermidade e não aludia a ela senão muito raramente e nunca lhe escrevia o nome, ocultando a doença até dos amigos mais íntimos, como em sua correspondência com o amigo Mário de Alencar: "O muito trabalhar destes últimos dias tem-me trazido alguns fenômenos nervosos...". Esta fobia pela palavra "epilepsia" era tão grande que a excluiu das edições ulteriores de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", e que deixara escapar na primeira ao descrever o padecimento de Virgília diante da morte do amante: "Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica...", substituída por: "Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...". Quando alguém lhe notou certa vez a dificuldade com que ele falava por causa das mordeduras da língua, justificava-a como "Estas aftas Estas aftas ". Ocultou-a inclusive da amada e dedicada esposa, Carolina, a quem devotava imensa ternura, não revelando seu problema antes do casamento. Provavelmente, a epilepsia de Machado de Assis teve início na infância, fato declarado pelo próprio Machado, ao tempo do primeiro ataque depois do casamento (uma crise generalizada tônico-clônica) de que sentira, em criança, "umas coisas esquisitas", que não se haviam mais repetido até aquela data. É possível, talvez, que Machado não tivesse tido até então uma crise típica (Pelegrino Jr., 1976). Esta crise denunciou, na idade adulta, a maior tortura da vida de Machado - a epilepsia.

Associação Brasileira de Epilepsia, ABE

Pode-se, no entanto, compreender a atitude de Machado de Assis. Com efeito, há preconceito com relação à epilepsia, mesmo nos dias de hoje, em que se acredita viver em uma sociedade mais evoluída e aberta. Um distúrbio neurológico é muitas vezes, infelizmente, confundido com uma limitação da inteligência ou da capacidade do epiléptico.

Segundo consta, Machado de Assis sofreu em virtude da epilepsia. Resta a dúvida se o maior sofrimento por ele sentido tenha sido em função das conseqüências orgânicas dos distúrbios – mal-estar antes das crises epilépticas, durante o estado de aura, ferimentos decorrentes das quedas e provável estranheza posterior às crises, na fase de reanimação, ou tenha sido maior o desconforto causado pelo esforço no sentido de não se expor à pressão social que delimita, nos costumes e na mentalidade do povo, as tênues fronteiras da “normalidade”.

Apesar de todas as dificuldades que Machado de Assis certamente viveu, e, mesmo havendo a expressão de sentimentos negativos em seus livros, principalmente no final de sua vida, pode-se certamente considerar sua atitude como positiva, de um modo geral. Com efeito, o autor manteve sempre uma conduta ativa, vencendo obstáculos com a força da genialidade das suas obras e sabendo partilhar a sua presença e os seus pensamentos através do seu trabalho.

Machado de Assis representa, certamente, muitas outras coisas mais, em adição à epilepsia ou ao espiritismo. Tais elementos são eixos importantes em sua obra, que revelam seus focos de interesse e até mesmo de preocupação em compreender e analisar a vida e as pessoas. Machado de Assis, na verdade, retrata a complexidade do ser humano e das relações interpessoais de um modo tão abrangente que nunca perde a atualidade, levando-nos, inevitavelmente, à reflexão.

Quem é o sujeito moderno ?

O conceito de sujeito moderno está baseado nos processos de individualização e de racionalização das relações sociais do mundo. O sujeito moderno é percebido como um indivíduo com mais liberdade do que seus antecessores na história, independente e buscando acima de tudo a razão para guiar todas as suas ações e o seu comportamento social e moral.

Nessa busca da modernidade através da racionalização, o ser humano passa a ser um objeto moldável pela racionalidade científica e técnica. A sociedade como um todo também passou a ser vista como objeto de manipulação técnica. As instituições buscam a transformação do ser humano num meio racionalmente controlável. O sujeito moderno é objeto de controle social, é um instrumento ajustável aos fins do projeto moderno.

Segundo Bauman, a modernidade caracteriza-se, principalmente, pela idéia do projeto moderno de controle do mundo pela razão. Esse projeto consiste em melhorar o mundo através do ordenamento racional e técnico dos Estados-Nações e da ciência. O sujeito moderno é visto como indivíduo. Bauman conceitua a individualização como o “transformar a identidade humana de um ‘dado’ em uma ‘tarefa’ e encarregar os atores da responsabilidade de realizar essa tarefa e das conseqüências (assim como dos efeitos colaterais) de sua realização. (Bauman, 2001, p.40).

Mesmo havendo mais liberdade para os indivíduos serem distintos e diferentes uns dos outros, para que eles fossem aceitos socialmente deveriam conformar-se à identidade do Estado a que pertencem. O indivíduo moderno já não é determinado pelo seu lugar de nascimento ou por relações preestabelecidas, mas ainda pertence a grupos sociais homogêneos intrinsecamente.

Com a modernidade, os indivíduos ambicionam tornar-se alguém, destacarem-se do grupo, e lidar com as conseqüências dessa posição de destaque, tanto com o sucesso quanto com o fracasso na sua trajetória em busca da sua realização como indivíduos. Apesar da mobilidade, da aceleração do ritmo de vida, da racionalização das relações, as diferenças são vistas ainda com desconfiança, talvez por causa da exigência da unidade de conduta e modos de vida, núcleo da idéia de povo e de nação, serem características da modernidade.

No entanto, a modernidade é um período histórico em que, apesar da maior liberdade individual, a razão muitas vezes voltou-se contra ela mesma e o desejo de classificação e de controle racional de tudo, tentando suprimir as ambivalências do mundo, realçando a intolerância em todos os aspectos da vida e com isso trazendo também grandes malefícios para a sociedade humana como, durante a segunda guerra mundial, os campos de concentração e a tragédia nuclear de Hiroshima e Nagasaki, entre muitos outros.

O sujeito moderno vive em um mundo que implica na aceleração e na diluição dos conceitos de tempo e de espaço, na tentativa de eliminação da ambivalência através da razão, na intolerância às diferenças, no desenvolvimento da ciência e das novas tecnologias.

Referência Bibliográfica

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. 1ª ed. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 2001.

Inicia hoje o Ano da França no Brasil: França.Br 2009

O Ano da França no Brasil inicia hoje, dia 21 de Abril (comemoração do Dia de Tiradentes e da Inconfidência Mineira, movimento histórico do século XVIII brasileiro, inspirado na Revolução Francesa) e terminará no dia 15 de Novembro (comemoração da Proclamação da República) de 2009. A escolha das datas deve-se à importância dessas duas datas para a história e para a formação da identidade do povo brasileiro.

A cerimônia de abertura acontece nesta terça-feira, feriado nacional, na cidade histórica de Ouro Preto, no estado de Minas Gerais e conta com a presença da Ministra da Cultura da França, Christine Albanel e do Ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira. Na ocasião, a atriz e cantora brasileira Bibi Ferreira canta a Marselhesa - confira no vídeo abaixo.

Em 2005, houve o Ano do Brasil na França, como retribuição, estabeleceu-se um evento de reciprocidade, firmado em 2006 pelos Presidentes da República dos dois países e reforçado pela Declaração Conjunta de 12 de Fevereiro de 2008, assinada em São Jorge do Oiapoque, na Guiana, que é um plano de ação franco-brasileiro estabelecido por ambos os presidentes “imbuídos de uma vontade comum de desenvolver a parceria estratégica entre a França e o Brasil em suas dimensões transfronteiras, bilateral e internacional”.

Com a diversidade de eventos que ocorrerão, o público brasileiro terá oportunidade de conhecer e de compartilhar da riqueza do mundo cultural francês. O Blog da Biarnesa propõe-se a ser uma janela aberta para difundir e fortalecer as relações fraternas entre a França e o Brasil, contribuindo para que novas estratégias de desenvolvimento conjunto sejam firmadas e que novas e duradouras alianças aconteçam.

Feliz Natal !

A Biarnesa deseja a todos um feliz Natal e um ano de 2009 com muita alegria e paz, ao som da canção Cartão de Natal, de Gonzagão e Zé Dantas, interpretada por Elba Ramalho.

Um presente vindo do Béarn: o Pastis da Amélie

Copyright Pastis d’Amélie Neste mês de dezembro recebemos um presente do Senhor Peio Larquier, proprietário de uma padaria na cidade de Mazerolles, no Béarn, França. O presente eram bolos especiais, fabricados a partir de uma receita tradicional da sua bisavó, feitos de forma artesanal. Uma verdadeira delícia, com aroma de rum, anis natural e baunilha. Esses bolos, chamados de pastis, os pastis d’Amélie, levam 48 horas para serem feitos e têm o requinte de repetir todas as etapas da receita original da bisavó Amélie.

Copyright Pastis d’AmélieSabemos que ao redor da mesa são tecidos laços sociais significativos e trocas simbólicas importantes. Agradecemos, pois,ao senhor Larquier por sua gentileza que nos fez viver momentos alegres em família, degustando os saborosos pastis d’Amélie e imaginando como seria o Béarn dos nossos antepassados, no qual também vivia Amélie, a criadora dos famosos pastis. A valorização dos produtos tradicionais caracteriza a identidade e a riqueza de um povo.

“O petróleo é nosso”, já dizia Monteiro Lobato...

Para quem cresceu embalada pelos livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948) como eu, é uma alegria participar dessa descoberta do petróleo brasileiro pré-sal e de confirmar amplamente aquilo que o nosso amado escritor já havia intuído e lutado há muito tempo.

Em 1920, José Bento Monteiro Lobato, como adido comercial brasileiro nos Estados Unidos, nomeado pelo presidente Washington Luís, acompanhou o crescimento da indústria automobilística norte-americana e entendeu a importância do petróleo para o desenvolvimento de um país. Ao voltar para o Brasil, Lobato trabalhou junto à Companhia Petróleos do Brasil fazendo prospecções na busca do ouro negro em solo brasileiro.

Em 1935, publicou a tradução do livro A luta pelo petróleo de Essad Bey, além de proferir palestras nas quais mostrava que o petróleo era uma questão de soberania nacional e denunciava os órgãos públicos por não se interessarem pelo tema do petróleo no Brasil e tentava convencer a todos da sua existência. Escreveu O escândalo do petróleo, em 1936 e, em 1941, foi preso pelo governo de Getúlio Vargas, no período chamado Estado Novo.

Assim, foi criticado e preso por teimar em dizer que no Brasil havia petróleo e que o governo tinha de explorá-lo para elevar o padrão de vida do seu povo.

O petróleo no Brasil foi descoberto oficialmente em 1939, no Campo de Lobato, no Recôncavo Baiano (BA), em uma localidade que coincidentemente tinha o nome de Lobato. Curiosamente, o personagem Visconde de Sabugosa do livro infantil O poço do Visconde, 1937, já havia profetizado a existência de petróleo na Bahia e, mais especificamente,

(...) na zona do Lobato, nos subúrbios da capital, abriram-se poços de excelente petróleo. Nesse livro, a Companhia Donabentense de Petróleo descobre petróleo no Sítio do Picapau Amarelo, no Poço Caraminguá nº1.

Em 1950, depois da morte de Monteiro Lobato em 1948, mas inspirados em seu exemplo, os partidos políticos de esquerda e os movimentos sociais engajaram-se na campanha em defesa do petróleo com o slogan “O Petróleo é nosso”, envolvendo todo o país. Em 1953, foi sancionada pelo Congresso Nacional a lei que criou a Petrobrás (Lei 2.004, de 03 de outubro de 1953), fruto da pressão do clamor popular, também no governo de Getúlio Vargas, só que no seu segundo mandato, então, como Presidente eleito. Disse Getúlio Vargas nessa ocasião:

Constituída com capital, técnica e trabalho exclusivamente brasileiros, a Petrobrás resulta de uma firme política nacionalista no terreno econômico. É, portanto, com satisfação e orgulho patriótico que hoje sancionei o texto de lei aprovado pelo poder legislativo, que constitui novo marco da nossa independência econômica. As bases da política petrolífera nacional se estabeleceram na Lei 2004, que criou a Petróleo Brasileiro S.A - Petrobras.

(Vargas, Getúlio, 1953)

Atualmente, com muitas plataformas de petróleo em operação, e diversos campos de petróleo com elevada quantidade de barris por dia, a Petrobrás inicia hoje, dia 05 de setembro de 2008, a produção do primeiro óleo do pré-sal, no Campo de Jubarte, na Bacia de Campos, no litoral sul do Espírito Santo.

O óleo será extraído a 4.700 metros de profundidade, tendo que ultrapassar uma camada de 200 metros de sal. Na solenidade de início da produção de petróleo na camada pré-sal, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Ministra Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff evocou o trabalho precursor de Monteiro Lobato na busca do petróleo brasileiro, comparando o Brasil ao Sítio do Picapau Amarelo e dizendo que a Petrobrás havia encontrado petróleo “atrás do galinheiro”, referindo-se ao livro O poço do Visconde.

Na solenidade de "inauguração do poço do sítio" (Sítio do Picapau Amarelo), com milhares de convidados, foi posta uma coroa de rosas com o seguinte letreiro, redigido por Pedrinho:

Salve! Salve! Salve! Deste abençoado poço – Caraminguá nº 1, a 9 de agosto de 1938, saiu, num jato de petróleo, a independência econômica do Brasil.

Da mesma forma, a ministra Dilma Roussef afirmou com relação à descoberta do pré-sal:

A descoberta do pré-sal é uma conquista da inteligência brasileira que foi capaz de fazer pesquisas a grandes profundidades da Bacia sedimentar brasileira. O pré-sal é uma diretriz estratégica fundamental para transformar o Brasil de país importador de petróleo para uma nação que seguramente pode vir a ser um dos países exportadores de petróleo, com um posicionamento diferenciado. Não somos um país qualquer.

(Rousseff, Dilma, 2008)

Quando os sonhos de homens como Monteiro Lobato se tornam realidade, tem-se certeza da grande simbiose existente entre a arte e a realidade e também reafirma-se o grande potencial mobilizador de atitudes novas da literatura. O livro O Poço do Visconde plantou a semente do sonho do petróleo em milhares de crianças brasileiras que hoje estão realizando esse sonho através das recentes descobertas da Petrobrás.

Centenário da Imigração Japonesa no Brasil e o Movimento Dekassegui

Foi em 18 de junho de 1908 que chegou o navio Kasato Maru, em Santos, estado de São Paulo, trazendo uma leva de 781 japoneses através do acordo imigratório estabelecido entre o Brasil e o Japão.

Em 1951 é aprovado um projeto para instalação no Brasil de 5 mil famílias de imigrantes e as primeiras empresas japonesas começaram a investir no país a partir de 1953. Em 2008, festejamos o centenário da imigração japonesa no Brasil.

O primeiro acordo diplomático e comercial aconteceu em 1880, em Tóquio, seguido do Tratado da Amizade, Comércio e Navegação, firmado entre Brasil e Japão em 1882, em Paris. O ano de 1908 serve de marco inicial da imigração japonesa no Brasil. Toda a história da adaptação dos japoneses no Brasil, suas dificuldades, alegrias, conflitos, é contada e mostrada no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, em São Paulo.

A arte japonesa do arranjo floral, ikebama, a arte japonesa de dobrar papel, origami, a culinária , a cerimônia do chá, a música, a dança, as artes marciais e as artes plásticas são apenas exemplos da contribuição cultural japonesa ao Brasil durante esses cem anos de imigração.

Atualmente, ocorre um fenômeno migratório inverso, chamado de dekassegui (o caminho de volta), no qual aproximadamente 225.000 brasileiros, descendentes ou cônjuges de japoneses residem e trabalham no país do sol nascente. Esse fluxo migratório em sentido contrário, motivado pela prosperidade japonesa e pela crise econômica vivida no Brasil a partir da década de 80, está levando por sua vez a cultura brasileira para o Japão e disseminando-a por lá.

E assim, no ano em que festejamos o centenário da imigração japonesa no Brasil, o retorno em números significativos dos seus descendentes ao Japão nos faz pensar na grande fraternidade que envolve essas duas comunidades aparentemente tão diferentes.

A queda da Bastilha influenciada pelo índio brasileiro

Foi comemorada, no dia 14 de julho, a queda da Bastilha, que marca o início da Revolução Francesa em 1789 e simboliza a liberdade e o combate à opressão não somente para todos os cidadãos franceses mas também para todos os cidadãos da América Latina, e do Brasil em particular. Os ideais da República Francesa de Liberdade, Igualdade e Fraternidade são cultuados no Brasil e fazem parte da formação cultural do nosso povo.

No entanto, parte deste ideal de bondade fomos nós mesmos que exportamos para a França, quando através dos relatos dos viajantes (Hans Staden, André Thevet, Jean de Lery) que aqui chegaram. O mito do bom selvagem e do paraíso terrestre se fortificaram e vingaram no espírito europeu.

Em Rouen, foram levados alguns índios para serem mostrados ao rei da França Henrique II e à população francesa. Nessa ocasião, o escritor francês Montaigne dedica parte dos seus famosos Ensaios à descrição dos canibais brasileiros e à sua gentileza e bondade naturais, temática esta retomada no século XVIII pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau que cultuou o bom selvagem e a natureza em oposição à cultura.

O olhar europeu sobre a alteridade através do índio brasileiro trouxe os fundamentos conceituais que tornaram possível a Revolução Francesa. Assim, a doçura do selvagem brasileiro era uma resposta às grandes transformações sociais impostas pela Revolução Industrial. A idealização do homem em contato íntimo com a natureza tropical contrapunha-se com o desenvolvimento tecnológico da época, a produtividade, a propriedade privada e a reorganização social decorrente.

O escritor brasileiro Afonso Arinos de Melo Franco (1905- 1990) escreveu uma importante obra de literatura comparada intitulada O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa (1937) na qual mostra a formação de uma nação que vai ao encontro do sonho europeu.

O autor explora a grande quantidade de ensaios filosóficos e de narrativas literárias inspiradas no índio brasileiro (ele detém-se principalmente no trecho dos Ensaios de Montaigne sobre os canibais brasileiros e a retomada do tema por Rousseau no seu Discurso Segundo sobre a bondade natural), descrevendo também a repercussão que teve o teatro de rua brasileiro em Rouen, fatos que influenciaram de maneira inquestionável o imaginário dos revolucionários franceses.

A utopia da liberdade vivida intensamente pelos revolucionários franceses foi inspirada em grande parte pelo Brasil. O pensamento europeu encontrou aqui material rico para a renovação cultural e o surgimento de novos valores. Assim, sentimos a data da queda da Bastilha mais próxima ainda de nós pelo imaginário comum das origens ao presente. Viva a França !

Inovação: Produção de gemas lapidadas, jóias e artesanato mineral no Brasil e na Argélia

Fonte: Solane.org © Sylvia Lucie Eva Donon - junho de 2004 - Todos os direitos reservados Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argélia, as trocas comerciais com o Brasil foram superiores a 2,4 milhares de dólares americanos em 2007, com uma balança comercial favorável à Argélia.

Assim, as exportações da Argélia para o Brasil alcançaram 1,8 milhares de dólares, consistindo basicamente em produtos energéticos, enquanto que o Brasil exportou o equivalente a 603,6 milhões de dólares para a Argélia, através de produtos como o açúcar, a carne e os laticínios.

Em 23 de junho de 2008, a Argélia e o Brasil realizaram um novo acordo para reforçar a parceria estratégica entre os dois países, firmada entre os dois governos em 1981 com o Acordo de Cooperação Científica, Tecnológica e Técnica.

Fonte: Tamanrasset.net O Ministro das Relações Exteriores da Argélia, Sr. Mourad Medelci, presidiu a terceira sessão da comissão argelino-brasileira juntamente com o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Sr. Celso Amorim.

Ao término da reunião, o Ministro Mourad Medelci declarou a decisão conjunta de compor um grupo de profissionais especializados encarregados de elaborar um projeto de acordo global para reforçar a parceria entre o Brasil e a Argélia.

Seis acordos de cooperação abrangendo atividades como a agricultura, a saúde, o artesanato e as pequenas e médias empresas foram, então, assinados.

No âmbito deste novo acordo de cooperação internacional, estão sendo implementados diversos projetos entre a Argélia e o Brasil.

Um destes projetos envolve a Transferência de Conhecimento para a Produção de Gemas Lapidadas, Jóias e Artesanato Mineral, através da ação da Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Gemas, Jóias e Similares: Mineradores e Garimpeiros (ABRAGEM) e da Agência Nacional de Artesanato Tradicional (ANART), da Argélia.

O projeto para produção de gemas lapidadas, jóias e artesanato mineral tem por objetivos:

Casa do Artesanato em Tamanrasset. Fonte: Tamanrasset.net a) implantar na Casa de Artesanato em Tamanrasset uma escola-piloto de formação em lapidação de pedras preciosas, compreendendo ateliers de lapidação, ourivesaria e design;

b) capacitar formadores argelinos destinados a assegurar a formação de artesãos argelinos nos campos de ourivesaria, design e lapidação de pedras preciosas e semi-preciosas; e

c) intercâmbio de experiências entre artesãos brasileiros e argelinos no campo da ourivesaria e do design, com vistas à valorização das pedras preciosas lapidadas.

(Ministério das Relações Exteriores do Brasil)

A cidade tuaregue de Tamanrasset (Tamanghasset ou Tamenghest, na língua berbere), cuja Casa de Artesanato participa do mencionado projeto de cooperação com o Brasil, conta com 76.000 habitantes e está situada em um oásis, no sul da Argélia.

Veja, no final deste artigo, um vídeo (em inglês) mostrando a cidade de Tamanrasset e algumas de suas jóias e artesanatos.

Segundo um artigo de 2006 sobre o Festival das Culturas dos Povos do Deserto em Argel, baseado em uma notícia do jornal El Watan, artesãos tuaregues figuravam entre os expositores do Saara, apresentando jóias sóbrias e austeras como o ambiente em que vivem.

O jornal El Watan informava que algumas das jóias artesanais apresentadas foram o tirewt, talismã protetor contra o mau olhado, brincos triangulares fabricados em Tamanrasset, representando as pegadas das patas de uma gazela, além do colar tamit, fabricado em Bordj Badju Mokhtar.

De acordo com os artesãos tuaregues, Tamit era a deusa da beleza para os tuaregues mais antigos.

Artesanato em Tamanrasset. Fonte: Tamanrasset.net O artigo sobre a feira de artesanato conta, ainda, que o colar tamit, de prata, é formado por um círculo representando a lua, no qual está suspenso um losango cujas arestas significam quatro direções.

Homens e mulheres utilizam esta jóia cujas formas geométricas relacionam-se a cada faceta do nosso cotidiano. A lua e as quatro direções acentuam o fato de que eles gostam de viajar à noite, quando as temperaturas são mais amenas, podendo-se economizar água e estar em segurança, desapercebidos pelos bandidos.

O autor do artigo esclarece, também, que muitos dos artesãos mais jovens ignoram o significado das formas e desenhos das suas jóias, reproduzindo apenas os detalhes ensinados pelos artesãos mais antigos e sábios.

Percebe-se, que, na tradição tuaregue, assim como na tradição brasileira, é fundamental preservar a riqueza cultural do povo para as geração seguintes, através, também, da compreensão do significado do seu artesanato.

A compreensão dos elementos que fazem parte da cultura de uma sociedade, representados nos ornamentos das jóias e de outros artesanatos, pode ser perdida se não for devidamente valorizada e reconhecida.

Espera-se, por fim, que este novo projeto entre a Argélia e o Brasil para produção de gemas lapidadas, jóias e artesanato mineral propicie não somente a troca cultural e econômica entre estes dois países, mas também a preservação de suas riquezas culturais e tradicionais pela valorização, pelo reconhecimento e pelo estudo das características e significados da sua joalheria étnica.

Fontes:

Solane.org © Sylvia Lucie Eva Donon

Tamanrasset.net

Ministério das Relações Exteriores do Brasil

Ministério das Relações Exteriores da Argélia

Vitaminedz

Jornal El Watan

Jardim da Cura: um auxílio na recuperação e na manutenção da saúde

Há uma tendência internacional em construir em todos os hospitais um jardim de cura, integrando a estrutura do prédio.

Acreditam os especialistas no poder benfazejo desse contato próximo com a natureza. O jardim é projetado para a recuperação da saúde e o hospital é visto como um lugar de reabilitação e cura.

Essa preocupação em incorporar o jardim ao espaço hospitalar já existia há muito tempo, apesar de estar na moda atualmente. No século XIX, por exemplo, depois da publicação do livro Traité médico-philosophique sur l’aliénation mentale, em 1809, por Philippe Pinel, o jardim tornou-se um conceito que vem sempre associado ao tratamento das doenças mentais.

E, mais tarde, Esquirol, psiquiatra francês discípulo de Pinel, criou uma planta ideal de asilo com pavilhões nos quais cada setor possuiria seu próprio jardim particular.

Diversos estudos científicos testemunham as inúmeras vantagens dos jardins de cura, principalmente se esses fizerem parte do projeto arquitetônico de hospitais. As propriedades terapêuticas são diversas, indo da qualidade do sono, do apetite até a redução de medicamentos e a diminuição de estados depressivos e a diminuição da dor.

Esses projetos, que visam à humanização dos hospitais, exigem tempo dos especialistas (médicos, arquitetos, jardineiros, designers), apoio dos governantes e de toda a sociedade, além de muito trabalho e um considerável investimento.

Mas esse esforço coletivo para revitalizar nossos hospitais através do jardim é uma iniciativa válida e necessária em benefício da saúde e do bem-estar dos indivíduos de todas as idades.

Dia dos Namorados sob a proteção de Santo Antônio

A data brasileira escolhida para a comemoração do Dia dos Namorados é o 12 de junho, véspera do Dia de Santo Antônio, conhecido como o santo casamenteiro.

No entanto, a escolha do mês de junho deu-se, inicialmente, por motivos bem mais prosaicos. Como junho, no Brasil, era o mês mais fraco para o comércio, o publicitário João Dória, empregado da Agência Standard Propaganda em 1949, realizou uma campanha publicitária para a extinta loja Clipper com o fim de melhorar as vendas do mês de junho.

Então, com o apoio da Confederação de Comércio de São Paulo, criou o slogan: Não é só de beijos que se prova o amor. A campanha foi um sucesso e a Standard ganhou o título de agência do ano. Outros comerciantes aderiram ao apelo do slogan e, a partir de então, 12 de junho tornou-se aquela data especial para se comemorar os casais apaixonados que trocam presentes, flores, chocolates, bilhetes, cartões e renovam as juras de amor.

Mas como as coincidências não existem, e nada acontece por acaso, o Dia dos Namorados no Brasil surge também sob a proteção de Santo Antônio.

Ele é o santo mais popular do Brasil, conhecido também como padroeiro dos pobres, santo milagreiro, sempre invocado para achar objetos perdidos, lembrado nas festas juninas, nas quais são acesas fogueiras em sua homenagem, além de ser invocado pelas moças que querem se casar.

O santo português nasceu em Lisboa, no dia 15 de agosto de 1195 e morreu em Pádua, na Itália, em13 de junho de 1231 foi também um dos maiores defensores dos direitos do homem. Clique aqui para mais informações da Basílica de Santo Antônio em Pádua.

Santo Antônio de Lisboa

Era um grande pregador

Mas é por ser Santo Antônio

Que as moças lhe têm amor.

Fernando Pessoa

A origem da fama de Santo Antônio como santo casamenteiro deve-se ao fato de que ele era um excelente conciliador de casais. Segundo a lenda, essa fama do santo remonta talvez a um episódio em que uma senhora que fora reduzida à miséria decidiu prostituir a própria filha para sair da pobreza.

A moça então recorreu à ajuda de Santo Antônio. Rezou com todo o fervor diante da imagem do santo quando, de repente, caiu das mãos da estátua um bilhete que a moça pegou nas mãos. O bilhete era dirigido a um próspero comerciante da cidade e dizia: "Senhor N..., queira obsequiar esta jovem que lhe entrega este bilhete com tantas moedas de prata quanto for o peso do mesmo papel. Deus o guarde! Assinado: Antônio".

A jovem teve fé e levou o bilhete à loja do comerciante que pesou o papel, colocando o bilhete em um prato da balança e uma moedinha de prata em outro. Mas, para sua surpresa, o bilhete pesava mais do que a moedinha de prata, e o comerciante, sem entender o que se passava, começou a colocar mais e mais moedas no prato da balança até conseguir equilibrar os dois pratos da balança com a soma de 40 escudos.

A história logo correu pela cidade e a moça passou a ser procurada por rapazes bons e honestos que lhe propunham casamento. Ela escolheu então um bom moço, casou-se e foi muito feliz. Daí em diante as mulheres que querem casar recorrem a Santo Antônio para pedir a ajuda do santo.

Nada melhor do que lembrar neste Dia dos Namorados, véspera de Santo Antônio, as palavras sobre o amor do poeta português Fernando Pessoa que nasceu em Lisboa em um dia 13 de junho de 1888 - Dia de Santo Antônio – e que recebeu o nome de Fernando Antônio em homenagem aos dois nomes do santo “Fernando” (nome de batismo de Santo Antônio) e “Antônio” (nome que adotou em 1220 quando ingressou na Ordem Franciscana) e cuja família dizia ter uma ligação genealógica com a família de Fernando de Bulhões (nome de batismo de Santo Antônio):

O Amor é uma Companhia

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio

Fernando Pessoa

Heterônimo Alberto Caeiro

O amor

Enquanto não superarmos

a ânsia do amor sem limites,

não podemos crescer

emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos

a dor de nossa própria solidão,

continuaremos

a nos buscar em outras metades.

Para viver a dois, antes, é

necessário ser um.

Fernando Pessoa

O Amor

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente

Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

Dia Mundial do Meio Ambiente: um dia de reflexão

No dia de hoje, não podemos deixar de pensar nos desastres ecológicos que têm ocorrido em nosso planeta, nem no desmatamento da Amazônia, ou, ainda, na intensa alteração climática mundial.

Com efeito, devemos ter consciência da gravidade do impacto ambiental causado pela nossa civilização.

Ainda assim, espera-se que o Dia Mundial do Meio Ambiente seja um dia de reflexão sobre o que podemos fazer pelo meio ambiente como cidadãos brasileiros e do mundo.

Mais do que lamentar-nos pela atual situação ambiental, devemos lutar por aquilo em que acreditamos e fazer a nossa parte, esperando que nossos esforços comuns tenham êxito.

Com relação, a isso, chamou a minha atenção a Carta Aberta no site do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, no quadro da Cooperação Técnica Brasil/Angola, principalmente após os assuntos abordados no último artigo deste blog, em que se comentou o Dia Mundial da África no Brasil:

Um convite aos educadores e educadoras ambientais do Brasil e de Angola

(...) O primeiro desafio colocado na construção do ProNEA Angola é semelhante ao que vivencia-se no Brasil: valorizar toda a diversidade cultural, lingüística, política e biológica, contribuindo ao mesmo tempo na construção de um estado nação moderno e democrático.

Forjar uma unidade nacional capaz de expandir-se para uma unidade planetária, um sentimento de pertença à humanidade, que se materializa no Saber Cuidar de cada pessoa, de cada sistema natural e das suas inúmeras espécies, solidariamente a todas as pessoas, energias e biomas do Universo.

Fortalecer a auto-estima e o orgulho de ser angolano (ou brasileiro), superando as mazelas de um longo período de guerra e as dificuldades na re-construção de um país em paz há apenas quatro anos, mas ainda assolado pela violência cotidiana de um trânsito caótico, das sub-moradias, da ausência de transportes públicos e da precariedade no saneamento básico e no fornecimento de água e energia elétrica.

Não deixar de indignar-se com todo e qualquer tipo de corrupção, tráfico de poder e injustiça social, mas não perder a esperança e capacidade de mobilizar-se na construção de um futuro melhor, com recuperação e conservação ambiental e com melhoria da qualidade de vida para todos e para cada um dos habitantes da Terra.

Constata-se que estes dois países, o Brasil e a Angola, continuam interligados, não somente através da história e do idioma, mas também por problemas sociais atuais. Sua cooperação mútua e sua união seria, portanto, um caminho possível na direção de um ideal em comum.

Da mesma forma que esperamos que a cooperação entre o Brasil e a Angola traga muitos resultados positivos no que se refere à gestão ambiental, esperamos que todos os países do mundo intensifiquem a cooperação internacional e o controle sobre o uso dos recursos naturais e da poluição, sempre com um objetivo único: promover a preservação do meio ambiente, um bem de todos.

Além disso, espera-se que, através de eventos como a FIEMA – Feira Internacional de Tecnologia para o Meio Ambiente, que ocorrerá no final deste ano em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, informações atualizadas a respeito de novas tecnologias para minimizar o impacto ambiental possam trazer novas soluções para as indústrias, beneficiando a todos.

Em conclusão, pelo menos no Dia Mundial do Meio Ambiente espera-se que cada um de nós identifique todo o seu potencial de participação na luta pela preservação do nosso planeta e reflita sobre as formas possíveis de colocá-lo em prática imediatamente.

O Brasil reverencia uma de suas matrizes étnicas formadoras no Dia da África

O Dia da África é comemorado anualmente no dia 23 de maio (data da criação da Organização da Unidade Africana - OUA, sucedida pela União Africana - UA), ocasião em que temos a oportunidade de refletir sobre a situação difícil em que vive esse imenso continente e o que está a nosso alcance fazer para melhorar as futuras condições de vida dos filhos da África.

O Brasil também tem o sentimento de ser um dos filhos da mãe África e nessa data é importante responder de forma solidária aos inúmeros desafios que enfrentam os brasileiros afrodescendentes.

Também aqui a África deve ser lembrada, não só o continente que se une estrategicamente para vencer as inúmeras dificuldades que surgem e ao qual nós prestamos a nossa homenagem mas também a população de escravos que aqui veio e forjou a identidade brasileira contribuindo para a música, a dança, a culinária, as tradições, o vocabulário, as narrativas, as crenças e a maneira de ser tão particular do povo brasileiro.

UA Neste 25 de maio de 2008, o sambista Martinho da Vila recebeu o Prêmio África por seu apoio e interesse pelo desenvolvimento das comunidades brasileiras de afrodescendentes.

Entretanto, é com tristeza que constatamos em uma sondagem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a Pesquisa Mensal de Emprego, de setembro de 2006, que os malefícios causados pela escravidão ainda persistem, contribuindo, ainda hoje, com uma desigualdade de oportunidades de acesso marcado por diferenças raciais aos bens básicos à vida humana digna: alimentação, educação e saúde.

Essa pesquisa segue o sistema de classificação de cor ou raça adotado pelas pesquisas domiciliares do IBGE, em que o informante pode escolher entre cinco opções:branca, preta, parda, amarela ou indígena. Os resultados da pesquisa feita com pessoas de 10 anos ou mais de idade nas seis regiões metropolitanas investigadas pela Pesquisa Mensal de Emprego (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre) divulgaram que dos 39,8 milhões de informantes, 42,8% declarou ser preta ou parda.

Os dados apontaram também que os declarados pretos e pardos tinham menor escolaridade que os brancos, que o rendimento médio dos declarados brancos era mais do que o dobro do que o dos que se declararam pretos e pardos, de modo que a contribuição para a previdência foi menor na população dos declarados pretos e pardos, em relação aos que se declaram brancos, devido à menor inserção dos declarados pretos e pardos no mercado de trabalho formal.

Essa desigualdade existente na sociedade brasileira, ainda resquício do período da escravidão, também precisa ser superada. Sendo assim, nesse dia dedicado ao continente Africano, nada melhor do que refletirmos sobre a África que compõe o Brasil e que deu a ele parte significativa da sua identidade.

O estudo raça/cor do IBGE (uma classificação extremamente subjetiva e situacional) permitiu-nos verificar diferenças marcantes com relação às variáveis sócio-econômicas tais como escolaridade, emprego e saúde, por exemplo.

Se desconsiderarmos as controvérsias quanto à classificação da população pela raça e pela cor da pele do ponto de vista antropológico e biológico, bem como a classificação conjunta das variáveis "preta e parda" – classificação essa que não seria a mais adequada para definir a população afrodescendente (na realidade um elemento étnico e político) porque os pardos (mestiços), na verdade, pertencem tanto à matriz africana quanto à matriz européia – e se analisarmos os indiscutíveis ganhos educacionais e sociais da população brasileira como um todo nas últimas décadas, poderemos, então, observar lamentáveis diferenças socio-econômicas entre as ditas populações branca e negra.

Dessa forma, neste Dia da África de 2008, renovemos o nosso compromisso de apoio à matriz étnica de origem africana para juntos superarmos as injustiças históricas que afligem a todo o povo brasileiro, considerado pelo antropólogo Darcy Ribeiro como uma nova etnia, dona de uma riquíssima cultura sincrética, com diferentes matrizes formadoras.

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