Semiótica da interação virtual intercultural
Maria Suzana Marc Amoretti
Conferência realizada no dia 05 de novembro de 2009 na Universidad de la República, em Montevidéu, Uruguai, no âmbito do III Foro de Innovaciones Educativas y el I Foro de Experiencias Educativas.
Como citar essa página:
AMORETTI, Maria Suzana Marc. BLOG BIARNESA. Semiótica da interação virtual intercultural. 11 de novembro de 2009. Online. http://blog.biarnesa.com/br/ Capturado em dia/mês/ano.
A sociedade da informação em que vivemos propiciou um grande crescimento da Educação à Distância demonstrado através da evolução da demanda por este tipo de formação, da necessidade econômica de se reduzir os gastos com a educação e da penetração das TIC’s em todos os setores de atividades, inclusive na educação. Também o papel das mídias cresceu, havendo o reconhecimento das mídias de comunicação como meios pedagógicos situados na origem do desenvolvimento e da maior difusão da educação. Com todas essas transformações o acesso à educação tornou-se um objetivo realizável.
O conceito de Educação à Distância foi aprimorado e o pesquisador Keegan (Keegan, 1980) foi muito feliz ao sintetizar a definição de EAD, a partir dos estudos de vários pesquisadores da área, em torno de seis características básicas:
Professor e estudantes estão afastados geograficamente
Este é o primeiro traço distintivo da EAD. A distância é um fator inerente a todos os tipos de formação, mas na formação à distância, ela predomina. É a relação entre as atividades que se produzem à distância e aquelas que acontecem presencialmente que faz a diferença.
A instituição tem lugar preponderante no coração do ato pedagógico
A instituição oferece o curso à distância e garante o acompanhamento dos alunos através de uma infra-estrutura de serviços: orientação, consultas, correção, registro de trabalhos e exames, gestão de dossiês. Conceptores, responsável pedagógico, tutores e aluno substituem a relação professor-aluno.
As mídias são usadas de forma integrada
Os conceptores de ensino analisam e recortam os conteúdos e fazem a transposição pedagógica através das mídias. Cada mídia tem uma função bem identificada para criar contextos de ensino e aprendizagem dinâmicos.
A comunicação bidirecional faz parte dos atributos da formação à distância
A formação à distância solicita uma participação ativa dos alunos. Dispositivos de comunicação bidirecional são colocados à disposição para permitir a troca entre professor-aluno, tutor-aluno e aluno-aluno (os). Comunicações por e-mail e telefone também são comuns.
Os encontros presenciais são também possíveis
Encontros presenciais são momentos privilegiados para se manter a motivação. Os encontros podem ser ateliês de apresentação de trabalho ou momentos de integração.
A prática da formação remete aos procedimentos industriais
A educação à distância aplica os princípios de produção industrial para estruturar e organizar a produção e a difusão de um ensino de massa. Práticas especiais distinguem a EAD: especificação de tarefas, organização racional do trabalho, estrutura hierárquica, controle da produção (ritmo e qualidade), análise dos mercados para produtos educativos.
A Formação à Distância é, mais do que uma modalidade de ensino, um sistema complexo cuja particularidade reside na dinâmica do processo de formação.
A preparação de um curso à distância compreende a fase de concepção do material didático e de planejamento do ambiente virtual de aprendizagem para a elaboração de um curso envolve grande número de atividades que, no conjunto, constituem um trabalho bem mais complexo do que a preparação de um curso presencial. Igualmente importantes são as atividades de enquadramento em EAD. O enquadramento pedagógico define-se como uma série de recursos colocados à disposição do estudante para facilitar a sua aprendizagem. Esse enquadramento pode ser garantido pelo professor ou pelas funcionalidades integradas no sistema informático ou, ainda, pelos próprios estudantes através de grupos de apoio estudantil.
Intimamente relacionado com o preparo do material didático e com o enquadramento está a motivação dos alunos. É uma característica afetiva definida como um estado dinâmico que tem sua origem nas percepções que o indivíduo tem de si mesmo e do seu ambiente. Tem a função de incitar o sujeito a se engajar em uma ação e a persistir até sua conclusão para atingir um objetivo. Durante as atividades de suporte e enquadramento ao aluno podem ser identificadas as três necessidades motivacionais estudadas por MacClelland (McClelland, 1987). Segundo ele, os indivíduos adquirem, através das suas experiências de vida, necessidades específicas (meios para atingir satisfação) como realização, afiliação ou poder. A motivação das pessoas, em determinadas situações, pode ser influenciada por essas três necessidades que são: Motivação Poder, isto é, as pessoas desenvolvem melhor seu potencial tendo a oportunidade de gerenciar e controlar outras pessoas. Tendem a ser firmes, diretos e competitivos, também persuasivos, se necessário. Gostam de dar conselhos e exibir objetos que revelem status. Precisam exercer influência; Motivação Realização, isto é, as pessoas gostam de projetos desafiadores com objetivos elevados. Trabalham sozinhos e tomam suas próprias decisões. Não trabalham bem sob supervisão cerrada. Precisam de feedback constante. Competem como forma de auto-avaliação; Motivação Afiliação, isto é, as pessoas demonstram sua melhor performance em ambientes cooperativos. Eles tem avidez por interação, precisam ser amados e desfrutar da companhia dos outros, relacionar-se cordial e afetuosamente com os outros. Precisam falar da família, de amigos e outros interesses sociais.
Assim, a Educação à Distância exige a construção de um novo esquema mental que englobe todas essas mudanças estruturais. O conceito de EAD modifica o esquema mental de referência do professor e do aluno decompondo o ato pedagógico em dois momentos e em dois lugares: o momento e o lugar do ensino e o momento e o lugar da aprendizagem. O ensino torna-se um lugar acabado e mediatizado que vai ao encontro do aluno no seu cenário de vida. A aprendizagem resulta do trabalho que o
aluno efetua auxiliado por este ensino diferenciado. As características da Formação à Distância demonstram a necessidade de tratar separadamente os dois momentos do ato pedagógico: o ensino e a aprendizagem. A natureza da relação educativa é outra na Educação à Distância alimentando-se de várias fontes, das quais o estudante detém grande responsabilidade para estabelecer e manter a relação.
Neste contexto pedagógico à distância, a interação torna-se primordial. Na interação presencial, em sala de aula, a interação constitui-se em um mecanismo de ajustamento do processo de ensinar e aprender. Na interação em EAD, este processo automático e espontâneo de ajustamento é reduzido: as reações do aluno face ao ensino chegam indiretamente aos professores e conceptores através de intermediários que são os tutores e animadores e os mecanismos de interação oferecidos pelo próprio ambiente.
A interação na Formação à Distância baseia-se na utilização de recursos tecnológicos como o correio eletrônico, o fórum de discussão, o chat, que, apesar de facilitar as relações entre os atores, não soluciona problemas comunicacionais que merecem a nossa atenção, tais como problemas de linguagem, de lógica, de civilidade e de esquemas comunicativos.
Encontramos dois níveis de análise na literatura interacionista:
Nível do Conteúdo Referencial: os enunciados descrevem certos “estados de coisas” internas ao texto conversacional e, mais precisamente, às intervenções. A pesquisa busca destacar as regras subjacentes à fabricação do texto e sua coerência interna: regras de encadeamento do ato de tomar a palavra ou das unidades hierárquicas das intervenções ou trocas lingüísticas.
“Toda interação verbal pode ser vista como uma sequência de acontecimentos cujo conjunto constitui um texto”, produzido coletivamente em um contexto determinado.” (Kerbrat-Orecchioni, 1992)
Nível Relacional da Interação: os enunciados contribuem a instituir entre os interactantes uma ligação sócio-afetiva particular: desejo de integrar um grupo social, desejo de consenso, desejo de ter razão, preocupação com a sua imagem. Quase sempre o conteúdo relacional diz outra mensagem que o conteúdo informacional. A pesquisa busca descrever o funcionamento das interações verbais através das relações construídas pelo viés da troca verbal entre os próprios interactantes.
“... é uma ação que afeta (altera ou mantém) as relações de si mesmo e de outrem na relação face a face.” (Labov&Fanshell, 1986)
Reunindo esses dois níveis de análise da interação temos a metodologia fornecida pela Semiótica Francesa que apresenta a vantagem de cobrir os dois aspectos em questão. As formas verbais explícitas e canônicas, o ato de linguagem indireto ou determinado comportamento gestual apropriado pressupõem estruturas narrativas profundas, as únicas que as tornam operatórias. A semiótica inverte as prioridades da pragmática linguística.
Nas condições estruturais da interação os modelos actanciais e narrativos, situados num nível de abstração mais elevado, tratam da produção semiótica das situações e da construção dos sujeitos (seus simulacros). Os interlocutores reais transformam-se, assim, mutuamente, em actantes dotados de competências (modais) e de papéis (temáticos) específicos. Dessa forma, a capacidade de interação dos interlocutores vincula-se diretamente às determinações sintáxicas e semânticas, assumidas pelos interlocutores. São essas determinações sintáxicas e semânticas dos interlocutores que garantirão aos sujeitos suas capacidades respectivas de interação ou, mais exatamente, de manipulação, de poder fazer-fazer.
A interação age com os elementos culturais. Didaticamente mostramos a divisão clássica entre natureza e cultura em que a natureza é tudo que está em nós por hereditariedade biológica, genética, e a cultura é, ao contrário, segundo a definição de Tylor, considerado o pai do conceito moderno de cultura, no seu livro Primitive Culture:
“Cultura ou civilização, tomada em seu sentido etnográfico amplo, é aquele complexo todo que inclui saber, crença, arte, moral, lei, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como um membro da sociedade.” (Tylor, 1871)
Acrescentamos a citação do antropólogo e etnólogo francês Claude Lévi-Strauss que dá ênfase ao papel da linguagem articulada como elemento distintivo entre cultura e natureza:
“A linha de demarcação entre cultura e natureza não está nos utensílios, mas na linguagem articulada, isto é, qualquer sistema de signos que possa ser traduzido, permitindo a comunicação.”
“A linguagem me parece ser o fato cultural por excelência.”(Lévy-Strauss, Claude, 1989)
A maior abrangência da educação à distância conduz a uma grande probabilidade de constituição de classes com perfis de alunos heterogêneos e de variada procedência, pertencentes a diferentes culturas. Dessa forma, a interação intercultural é a norma. Comunicação entre atores pertencentes a duas ou mais culturas, isto é, pertencentes a dois sistemas cognitivos e axiológicos diferentes ou parcialmente diferentes.
Os tipos de relações entre duas culturas que podem ocorrer são: relação de troca, relação de concorrência, relação de conflito, relação de negociação, entre outras.
Surge nesses cursos à distância uma tensão entre cultura global versus cultura local. Temos a cultura dominante, o caso do colonialismo, por exemplo; a cultura de uso comum para se executar tarefas comuns e se coordenar ações, como o uso geral da língua inglesa; temos a cultura especializada globalizada como a cultura econômica e financeira.
Além das diferenças entre culturas distintas, podemos distinguir também registros interculturais dentro de uma mesma cultura, por exemplo: a cultura operária e a cultura rural, ambas dentro de uma mesma cultura englobante, a cultura clássica e a cultura moderna no interior de um mesmo sistema literário, a cultura vestimentar de um segmento da sociedade, como os jovens, a cultura alimentar regional, a cultura artística visual de um determinado grupo social inserido na sociedade englobante.
Há ainda a possibilidade de culturas serem parcialmente distintas como as relações entre duas culturas nacionais em que ocorrem transferências culturais entre elas como entre a França e a Alemanha, o Uruguai e o Brasil. Outra possibilidade de interação intercultural parcial seria a relação entre duas culturas especializadas (técnica, científica, literária).
As competências modais dos actantes e seus papéis temáticos podem distribuir-se na estrutura da interação entre as seguintes modalidades de práticas interculturais: perceber e interpretar (prática cognitiva intercultural), dizer ou expressar (prática comunicacional intercultural) e, principalmente, no fazer ou fazer-fazer (prática da ação e da interação intercultural)
Considerações finais
O professor à distância deve buscar sempre mecanismos que permitam uma discussão orientada, que resulte em uma interação efetiva, ajustada ao perfil dos estudantes. Esse diálogo deve incitar os estudantes a implicarem-se ativamente no trabalho proposto, fornecendo ao final, como resultado, aquilo que cada um considera importante e significativo.
Acreditamos que o método semiótico de análise das estruturas de comunicação, em especial da interação, é uma ferramenta eficaz para a melhoria dos aspectos interativos da formação à distância. O estudo semiótico do percurso narrativo da interação entre os actantes da formação à distancia e do percurso semiótico entre as culturas auxiliam no aprimoramento das práticas de interação, nas relações entre os atores da EAD, favorecendo a aprendizagem.
Como citar essa página:
AMORETTI, Maria Suzana Marc. BLOG BIARNESA. Semiótica da interação virtual intercultural. 11 de novembro de 2009. Online. http://blog.biarnesa.com/br/ Capturado em dia/mês/ano.
Direitos Autorais 2007-2009 Copyright Biarnesa Traduções e Maria Suzana Marc Amoretti.Todos os direitos reservados. Proibido reproduzir este texto total ou parcialmente sem autorização